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COVID-19:

Investimento

Junho 2020
Bruno Santos, Especialista em investimentos

 

Benefícios da Incerteza nos mercados financeiros

O que precisa de saber:

Um dos princípios base de quem investe é que a incerteza faz parte de todo o processo de investimento. Não fosse a incerteza, não haveria praticamente variações nos preços do mercado pois o ajustamento a uma realidade seria instantâneo.
Na realidade, e em particular para os ativos que pagam juro, a incerteza é o principal fator que determina o seu preço, pois a rendibilidade que vamos exigir de um determinado investimento deriva fundamentalmente da probabilidade de uma empresa/estado vir a pagar a sua obrigação na sua maturidade.

A Covid-19 e a incerteza nos mercados

 

A Covid-19, pelo elevado desconhecimento que existe ainda sobre a doença, veio trazer uma nova camada de risco para a economia e para os mercados financeiros. A incerteza, que é habitualmente medida nos mercados financeiros pela volatilidade, duplicou no último ano na generalidade dos ativos financeiros, em particular desde fevereiro, altura em que a pandemia chegou à Europa. Refletindo sobre o impacto que a pandemia está a ter na economia, poderíamos pensar em 3 diferentes estágios:

  • O primeiro, o reconhecimento da gravidade e o consequente confinamento;
  • O segundo, uma aceitação da doença e uma abertura gradual das economias;
  • E por fim, um maior conhecimento da doença e a consequente avaliação do impacto estrutural que a mesma terá nas nossas vida.

 

 

Os cenários de investimento

 
Com a entrada no segundo estágio desta pandemia e a reabertura das economias, quisemos refletir no Comité de Investimento sobre os vários cenários de recuperação que poderemos ter, admitindo que estamos perante uma doença desconhecida e como tal é impossível de atribuir probabilidades de concretização a cada um dos cenários.

No entanto consideramos importante refletir, perante as várias hipóteses possíveis, que impactos são expectáveis nos mercados financeiros.
 
 

Cenário Central

 
No cenário central consideramos que a economia pode evidenciar uma recuperação forte nesta segunda fase pós reclusão, sendo mesmo possível ter alguma euforia no curto prazo.

Depois de um longo confinamento, é natural que a atividade recupere rapidamente uma boa parte do que caiu.

No entanto, a elevada incerteza de médio prazo provocada pela doença, não deixará a atividade recuperar totalmente, em particular em áreas mais ligadas a consumo de bens duradouros, como imobiliário e setor automóvel e o investimento (fora alguns exemplos muito particulares, é questionável saber que empresas tencionam neste momento aumentar, ou mesmo manter, o investimento planeado para os próximos anos). Neste contexto, consideramos que na terceira fase desta pandemia o crescimento será apenas moderado, limitando assim o potencial de uma recuperação rápida para o ponto inicial.

Neste cenário, o asset allocation deverá refletir isso mesmo, dando preferência a ativos mais seguros como obrigações governamentais e nas ações, uma maior exposição a ações americanas.
 
 

O cenário mais positivo

 
Uma resolução mais rápida da pandemia ou o seu súbito desaparecimento (não é de descartar nenhuma hipótese neste clima de total incerteza) poderá levar efetivamente a uma recuperação mais rápida e sem grandes sobressaltos da economia, graficamente em forma de "V".

Aqui os ativos mais castigados desde o início do ano, como obrigações high yield (com pior qualidade de crédito) e ações cíclicas ligadas ao turismo, setor automóvel, petrolíferas e mesmo financeiras, poderão registar uma rápida recuperação. Como principal aspeto negativo neste cenário poderemos ter o ressurgimento da inflação decorrente da recuperação rápida do consumo e de eventuais desequilíbrios do lado da oferta.
 
 

Impacto de um eventual cenário mais adverso

 
O cenário mais adverso infelizmente também não está posto de parte. Uma eventual segunda vaga pode provocar novos entraves à normalização da economia e os impactos que até agora poderiam ser temporários, transformar-se-iam em estruturais. Aqui, a grande preocupação recairia no aumento do desemprego e do número de falências de empresas.

Neste cenário, ações e obrigações corporate poderiam registar novas perdas, ficando apenas as obrigações governamentais (core), liquidez e ouro, como ativos de refúgio nesta crise económica.
 
 

Onde há risco, há oportunidades

 
A incerteza sempre fez parte dos mercados financeiros. Esta é provavelmente das expressões mais usadas pelos investidores profissionais neste momento para justificar alguns movimentos mais atípicos nesta crise.

Mas raras vezes nas últimas décadas estivemos perante um total desconhecimento de uma doença que está a condicionar a vida de todos os habitantes do planeta. Assim, é de esperar que a volatilidade permaneça elevada nos próximos meses. Mas onde há risco, há oportunidades, particularmente para quem investe a médio/longo prazo.

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